14.11.04

De Noite Na Cama...

Nosso amor teve várias fases: a primeira, foi árdua - eu deitada na cama de casal, ela na sala. Atravessávamos a noite em branco, doidos para que aquela parede estúpida caísse, e a gente pudesse experimentar o que o coração estava propondo - dividir beijos e depois o sono. Mas... primeiro, ela precisou derrubar minha parede interna - a velha mania de não se entregar.
Passamos então, para a etapa dois: muito beijo, língua, perna, mão, nuca, cheiro, e claro, sono algum. A cama ficava de cenário, para o sono que não acontecia. E acredito que ali, a parede ruiu - dispensei o sofá da sala e permiti que ela dormisse ao meu lado, com um tesão que não concebia descanso.
Fase três: descobrimos sem querer, que a gente podia dormir e acordar. No dia seguinte, ela estaria ali, e vice-versa. Foi então, a fase mais chata - a gente custou a encontrar uma posição confortável.
DORMIR JUNTO É FEITO SEXO - VOCÊ PRECISA SE ACOSTUMAR COM A IDÉIA DE QUE NEM TODA POSIÇÃO É CONFORTÁVEL.
Tentamos tudo! Ela no meu braço, eu no braço dela. Eu no peito dela, um pouco para cima, um pouco para baixo, um pouco para o lado... Teu braço dormiu? Estou pesada? Vira. Coloca a perna aqui, ó. Está bom assim? Consegue dormir?
Até que um dia, não teve jeito: só consigo dormir de barriga para baixo. Desculpe.
Descobrimos então, a fórmula - era preciso que eu deitasse no ombro, do lado direito, e segurasse no calção dela. Juro por Deus! Ficava ali, deitadinha, quieta, até a respiração dele acalmar a loucura do meu dia, depois, a gente se beijava, eu virava para a esquerda, colocava o travesseiro no meio da perna, e adormecia.
E assim, descobrimos juntos o óbvio - é preciso respeitar o momento das coisas, dividir verdades, ainda que dormir de barriga para baixo com travesseiro no meio da perna seja uma delas. Descobrimos, na cama, que a gente pode estar ao lado, sem estar junto todo o tempo. E no fundo, sempre nos permitimos espaços.
Gostar não é ocupar a cama toda, é respeitar o vão que fica no meio. Nunca tivemos receio dos vãos - era só virar para a direita, que a respiração estava ali, para acalmar insônias, ou contar uma história às duas da manhã quando as preocupações nos consumiam. Estar dentro de um relacionamento, é acima de tudo, respeitar o travesseiro no meio da perna...


Obs: Sempre me perguntei como papai e mamãe conseguem dormir abraçadinhos há trinta anos. Um dia, ela me confessou: Muito treino, minha filha, muito treino.
Começo a suspeitar que relacionamentos exigem treinos constantes, né não?

Um comentário:

Martha O. de Barros disse...

Adorei, Pati! Você ajuda a manter a elegância deste site com a vida que pulsa em seus textos...