De vez em quando, me obrigo a parir poesia. No meio do trânsito, entre carrinhos de supermercado, bancas de revista e jornais velhos. Parir poesia no dia a dia – entre extratos bancários, clientes caros, filho doente, rua esburacada, esmola de garoto e vitrine badalada.
Nem sempre meu parto é natural.
Uso fórceps. Cesariana. Ou parteira do bairro. Às vezes nasce espontaneamente. Noutras preciso das mãos dele...
A verdade é que preciso dessa rima forjada. Suspiro ensaiado. Poesia para negar o real que me cerca. Para negar esse cerco.
Vou parindo Leminski, mestre Fernando, Drummond... Parindo música e texto decorado. Poema emprestado. Parindo meu amor adolescente. Meus desejos em feto, ainda. Os afetos.
E quando dou por mim, nascem filhos bastardos – estrofes que não me pertencem, mas são diariamente alimentadas por estes seios...
2.2.06
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9 comentários:
Lindo! Senti vontade de assistir teus partos, e usar minhas mãos...
Desculpe fugir do assunto, mas não consegui postar esse comentário no site do livro...
Consumo o livro da tribo há vários anos e sempre me incomodo com o ilustrador Martinez. Ele é muito óbvio, se a poesia é de cachorro, ele desenha um cachorro! Com tantos ilustradores bons por aí, por que esse excesso de MZ no livro de 2005????
Olá,
Quantos anos tem essa Raquel? Procurei no site e não encontrei nada dela. Se ela está na tribo, cadê o perfil dessa mulher? É casada? he,he,he...
Por favor, meu nome é Ítalo, e gostaria de obter o e-mail da Raquel ou nom completo. Em quais agendas desta tribo posso encontrar material dela?
Valeu!
Ítalo (capital)
em primeiro lugar, gostaria de parabenizar o pessoal da tribo pela iniciativa do blog!! acompanho o trabalho de vcs há 5 anos e sou completamente fã!
mto interessante o texto!!
e realmente o cotidiano - as pessoas na fila do banco, um cachorro na calçada, uma criança tomando um sorvete - é a melhor inspiração... nada melhor do que ver poesia em cada canto que passamos...
até mais!!
Raquel, me identifiquei muito com o seu texto. Parir palavras é realmente ofício de poeta (ainda que em prosa!). Costumo dizer: "Minha mente é fértil / Estou grávida de idéias..."
Parto do princípio. Vida pulsa em mim.
Suave angústia driblar a realidade com poesia. Clarice Lispector diz que a realidade é inacreditável. Ferreira Gullar diz que a realidade é inventada... seja como for, nossa relidade é poesia.
Parabéns pelo texto. Não conhecia seu trabalho, vou buscar por novas palavras suas.
Poetabraços
Clauky
Raquel,
Moro na capital paulista, e fiquei encantada com a realidade que transmitiu para o papel.
Meu namorado sempre me exibe o blog para mostrar os textos.
Dúvida: por que demoram na reciclagem?
Um beijo a todos
Camila/SP
Belo texto!
Deu até vontade de parir...
Como é estranho ver coisas do nosso íntimo ditas pelas palavras de outra pessoa.
E como é bom também, embora ciumenta do sentimento é bom sabê-lo compartilhado, é bom perceber que é real a poesia que as vezes enxergamos furtivamente nos olhos daqueles que passam por nós, nas filas, nas calçadas...
Acalento.
Acalanto.
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