2.2.06

Parto natural

De vez em quando, me obrigo a parir poesia. No meio do trânsito, entre carrinhos de supermercado, bancas de revista e jornais velhos. Parir poesia no dia a dia – entre extratos bancários, clientes caros, filho doente, rua esburacada, esmola de garoto e vitrine badalada.
Nem sempre meu parto é natural.
Uso fórceps. Cesariana. Ou parteira do bairro. Às vezes nasce espontaneamente. Noutras preciso das mãos dele...
A verdade é que preciso dessa rima forjada. Suspiro ensaiado. Poesia para negar o real que me cerca. Para negar esse cerco.
Vou parindo Leminski, mestre Fernando, Drummond... Parindo música e texto decorado. Poema emprestado. Parindo meu amor adolescente. Meus desejos em feto, ainda. Os afetos.
E quando dou por mim, nascem filhos bastardos – estrofes que não me pertencem, mas são diariamente alimentadas por estes seios...