30.1.05

Tudo É Música (Que É Tudo)

Fui ao Pantanal e na volta encontro esse delicioso debate sobre sedução, detonado pela música “Por que que eu não pensei nisso antes”, do Itamar Assumpção. Pedro elogia a sedução; Jane desconfia dela; Pati fala do masculino e do feminino.
Pois estava tudo lá, na música que inspirou Pedro ao primeiro post. Como ele ressaltou, sedução é convencer sem brutalidade, usando criatividade e sensualidade. Conquistar o coração do outro:

Pensei em seduzir você, com algo bem provocante
gingando num bambolê, me equilibrando em barbante (...)

bater no peito e dizer, num brado bem retumbante:
“Só penso em você!” – Por que que eu não pensei nisso antes?

Mas tem a sedução da matéria. Tem aquilo que a Jane critica:

Pensei em seduzir você fazendo ar de importante
Te oferecendo um apê, um drink, um refrigerante (...)

dançando numa tevê, coberto por diamantes
num carrão zero – porque que eu não pensei nisso antes...
E, por fim, a coisa do masculino buscando o feminino, da Pati:

Pensei em seduzir você domesticando elefantes
cuidando bem de bebês, doando-me pra transplantes

Além de fazer crochê, pensei dar vôo rasante
ir ao cinema, escrever, reinar neste caos reinante
por cargas d’água, porque que eu não pensei nisso antes?

É por isso que a música é maior. Porque não fraciona, reúne. O desejo de sedução da música mistura tudo, como acontece em nós, nesta bagunça da nossa emoção. Com muito humor, ainda por cima:

Pensei em seduzir você mostrando-me confiante
plantando um pé de ipê, ecólogo ambulante
limpando o rio Tietê, e os outros rios restantes
ser carioca – e baiano! – porque que eu não pensei nisso antes?

Pronto. Um tratado sobre o pior e melhor da sedução. Poético e, ainda por cima, dançável.
(disco “Pretobrás”, de Itamar Assumpção)

26.1.05

Homens e Mulheres

Interessante a polêmica que tu começou, Pedro. O ponto de vista da Jane também é tri. Mas acho que tem aí uma questão de gênero.
O reitor de Harvard disse semana passada que as mulheres não ganham tantos prêmios Nobel quanto os homens em ciências exatas porque homens são melhores mesmo nisso.
Toda a linha de raciocínio do senhor reitor (que deve estar passando um aperto com suas pupilas) está baseada em diferenças evolutivas, os chamados dimorfismos, entre homens e mulheres. Penso que tu, Pedro, e tu também, Jane, refletiram atitudes políticas frente à sedução que podem ter origem nestas diferenças.
Se há algo que todo evolucionista concorda é que, ao longo da história, coube aos homens convencer as mulheres dos seus predicados. Mulheres escolhem seus parceiros, enquanto os homens vêm se estapeando ao longo dos séculos pra ter uma companheira. Natural que Pedro ache a sedução uma saída não-violenta, e também natural que Jane lembre toda a opressão que esta sedução significou e significa para as mulheres.
Quanto a mim, acho tri seduzir e ser seduzida. Mas prefiro a sedução feminina, mesmo quando é direta.
Sei lá, fêmea é mais macia...

25.1.05

Sedução e Consumo

Pedro tem este jeitinho acadêmico de dizer as coisas como se não houvesse uma ideologia por trás. Maneirinha professoral, coisinha que parece estar falando o óbvio.
Mas não me digue que sedução não é diferente de força, pelo menos não hoje. Vejo a criançada seduzida por música estrangeira, vejo adolescentes seduzidos por tênis importados, vejo homens feitos seduzidos por carros reluzentes. Vejo a sedução da mídia, dos políticos que imitam nossos pais, vejo uma pá de mentiras bem arrumadinhas e reluzentes, que de tão bonitas ficam mais apetitosas que a verdade.
É só ligar a TV na Globo e se conclui que sedução é poder, no estilo mais tradicional possível – só que apresentada com um jeito de arte, com música, com psicologia manipulativa. A sedução do corpo perfeito, da mulata rebolante, do luxo.
Afe, eu tô preferindo o porrete que pelo menos é mais claro.

24.1.05

Sedução



Estava ouvindo uma mp3 que Fred mandou, escutando os versos do Itamar:
“pensei em seduzir você, domesticando elefantes...”
Fiquei a pensar no ato de seduzir. A palavra é pesada pra alguns, mas o sentido maior é encantar, convencer, provocar admiração, sensualizar.
Cheguei à conclusão que seduzir é o oposto de impor. Não existe outra forma, em uma relação ou discussão, para mudar a posição de alguém: ou força, ou sedução. Seduzir, então, é usar nossos recursos – retórica, argumentos, charme, criatividade, emoção – para fazer ver o que não está evidente de cara. Mesmo em temas ditos racionais é a capacidade de surpreender, de ser enfático, que encerra realmente a discussão. Não há mudança de opinião que não passe pela emoção das pessoas.
Seduzir é isso. Uma evolução antropológica, em que o mais forte não é mais o que tem o porrete maior, e sim aquele que toca mais fundo à imaginação e ao coração.

15.1.05

Martha e a Realidade Partidária

Martha, minha querida: sou só uma pessoa incrédula com a história que se escreve – ela é sempre a de quem ganhou a guerra.
Hoje lembrando uma de minhas viagens pelo Amazonas, quando cheguei aos países andinos e vi uma profunda aversão a tudo que é espanhol, me perguntava se eles seriam mais felizes se tivessem sido colonizados pelos saxões. Quando vejo um Canadá, Estados Unidos ou Austrália nessa prosperidade que hoje tomamos por modelo, imagino que se os colonizadores latinos tivessem seguido seu método de eliminação total dos aborígenes não teriam se elevado a potências mundiais, usando seus poucos nativos que sobram para o que em sua opinião servem: música, esporte e guerra.
Deve ser bom olhar das janelas de imensos bancos, com orgulho, estas minorias negras e hispânicas hastear a bandeira do colonizador festejando os êxitos militares, esportivos ou musicais que eles colonizadores atribuem a si próprios. Bandeiras de pátrias que se apresentam brancas e de olhos azuis, bandeiras impostas como símbolo destas pátrias.
Lembro-me de Lima, cidade construída séculos antes da chegada do colonizador, com a preocupação de sempre haver sombra em suas ruas para a caminhada. Não há o menor crédito para os que em épocas em que não havia ar condicionado projetaram e construíram esta maravilha, apenas ruas ruinosas e descuidadas.
Digo tudo isso porque a realidade não tem lado escuro nem claro, é uma só, o que não impede cada um de escolher o que quer ver. A beleza nos mantém vivos. Mas eu, por meu lado, quero contar o que vi e senti, quero ouvir outras opiniões – como a sua – e confesso que adoro uma polêmica. Prefiro-a à toda unanimidade burra.

Gastón e o Lado Escuro




Estive lendo o post de 2-01-2005 do nosso ilustre senhor químico. Espanholíssimo, revoltado como sempre, querendo distribuir culpa não só pelas mazelas de nossa terra linda mas também por aquelas de alhures. Ah, Gastón, como te complace o lado negro!
Eu, por mim, continuo olhando para o belo: pessoas, textos, natureza. Espero pros nossos leitores e pra você, Gastón, muita beleza neste 2005!

14.1.05

Tribo

Não faz tempo desejei morar numa tribo - é, isso mesmo! Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio, e tomar banho de sol, baila comigo, uouou...

Adoro a idéia de plantar e colher, pés no chão, vida calma, livro nas mãos, produzir para os que amo, falar devagar, escrever um romance, ter planos comuns, correr por vontade (e não necessidade!), cabelo no rabo-de-cavalo, dispensar batom e cabelo escovado, bailar na tribo...

Hoje, acordei entre computador, prazos, reuniões, duas linhas telefônicas, celular tocando, pastas verdes, muito papel (e nem era reciclado!), reuniões, trânsito, engarrafamento com chuva, dia rápido, bolachas na hora do almoço, café para segurar o raciocínio, pauta de reunião, ata de reunião, gastrite, esofagite, consultas, arquivo, livro...

À noite, em silêncio, minha alma tirou os sapatos, respirou manso e dançou na tribo. Sim, coloquei cocar, pintei a face com urucum, tirei o jeans e vesti minha tanga. Deitei na rede, seios de fora, pés descalços e limpinhos...Até pensei em chamar minha índia, mas na tribo não tem telefone... E de vez em quando a gente precisa aprender a bailar sozinha...

Começando Tudo

Pronto, já é 2005, começou tudo novo. Concordo com o que foi dito pelos amigos no fim do ano: que comece, e que seja novo.
Eu, por mim, neste corpinho que mamãe me deu, estou me sentindo começando. Não é o começo "com gosto de pão fresco" do Drummond. É um começo de parto, mesmo: tenho pedaços de placenta grudados, sinto a dor muscular da luta pra chegar ao zero, meus pulmões ainda ardem do último grito. Sou Zen, mas também sofro.
Depois da ralada, de bater com a cara no muro (ah, o amor...), estou assim, recém-nascido. Não perdi minha história, mas estou com olhos novos. Pronto para engatinhar, andar, tropeçar, cair, andar. E, quando for preciso, nascer de novo.

5.1.05

Aperte o Play

"DEIXE-ME CUIDAR DE VOCÊ."
"DEIXE-ME AJUDÁ-LA."
"NÃO ESTÁ ACOSTUMADA OU ESTÁ COM MEDO?"
"PARA QUE TER MEDO DE COISAS AGRADÁVEIS E BOAS?"


Amigos absolutamente diferentes se aproximaram de um momento vulnerável desta pacata vidinha para facilitar a caminhada.
Claro, aceitei risos, conversa, presença e sugestões. Mas admito: continuei resistindo a atitudes lindas - rejeitei um rádio emprestado, por exemplo.
Sozinha, num sábado de chuva, desconfiei que talvez esteja na hora de anistiar meu coração. É... dar moratória para tantas exigências e cobranças, permitir-me mais leveza...
Que mer-da, não? Sempre julguei que ter força é abrir-se para o próximo, receber o novo, aceitar um rádio emprestado, colocar música nos nossos dias, e apertar o play...
Em que momento atribuímos à idéia de força uma imagem de solidão?

2.1.05

Corações e Mentes - Ausentes



Como todos, senti o soco no estômago ao ver as imagens e imaginar as proporções do que aconteceu na Ásia.
Um desastre natural destas proporções deixa a gente cheio de dúvidas. As minhas são sobre nós, os espectadores da catástrofe.
Claro, somos solidários. Quem tem fé reza, quem é da ação doa, na Paulista fizeram um minuto de silêncio. Afinal, foram provavelmente 300 mil mortos, e a situação dos sobreviventes é desesperadora.
Mas em Ruanda foram mais de 800 mil mortos. Assassinados brutalmente, com facões. Estupro, massacre. Porque eu não senti este nó no estômago? Você, que lê estas linhas, consegue comparar o que sentiu então com o que ocorre agora? Fazem apenas 10 anos... Tá, você é novinho e nem sabia ler em 1.994. E Darfur, há apenas alguns meses? Dezenas de milhares de pessoas - crianças, velhos, famílias inteiras - massacrados por sua etnia e religião? E não era a mãe natureza, não , eram homens armados. Era previsivel, durou meses, era evitável.
Minha conclusão é simples: nós sentimos o que vemos. Deixe-me ser mais claro:
nós sentimos o que vemos. E o que nos é dado ver é selecionado, escolhido a dedo, filtrado. Algum leitor não viu o drama das Torres de N. Y.? E quantos souberam dos genocídios na África?
O ano está começando, e não quero fazer o papel ranzinza de sempre. Não vou ficar aqui reclamando do sistema, do controle do governo e da comunicação de massa. Vou falar para você, que me lê, sobre este 2005 que está começando.
Olhe à sua volta. Bem pertinho, ali na esquina, onde aqueles moleques estão vendendo chicletes, onde o travesti é hostilizado pelos pais de família, onde o maconheiro apanha e é roubado pelo policial truculento. Veja estas pessoas.
Quem sabe, em 2.005, elas passem a existir para mim, para você
e para o mundo.