26.8.04

E se não for nada disso?

Tenho acompanhado a indignação de Gastón e Jorge pelos homicídios brutais que aconteceram em S. Paulo. Antes de prosseguir, deixo claro que partilho desta indignação.
Quero, no entanto, oferecer outro ângulo para vermos o problema. O assassinato não admite outra atitude senão a condenação e a repressão. Mas noto que nos textos de Gastón e Jorge existe uma visão específica de quem são os moradores de rua (este jeito eufemístico de dizer mendigos...).
Gastón fala de socialismo, como se um crime de ódio destes fosse evitável em outra ordem social. Jorge diz que todo trabalhador pobre está a um passo de ser um mendigo, se perder o emprego.
Eu conheço vocês já faz tempo, então peço que desarmem seus espíritos para o que virá a seguir.
O que a esquerda pratica é um culto à mudança, uma mudança macro pra "algo melhor" (foi o que o Lula nos vendeu, não foi?), que nos livraria de grande parte de nosso sofrimento. O que realmente somos, nosso comportamento, mudaria a reboque destas grandes mudanças estruturais (o fim da fome, por exemplo).
A palavra chave, para a esquerda, é mudança. Eu sugiro outra: conhecimento. Mudança já é a dinâmica da natureza. O que nós, como humanos podemos fazer, frente a ela, é aprofundar nosso conhecimento sobre nós mesmos e sobre estes fluxos naturais de mudança. Muita coisa pode nos parecer injusta, absurda, cruel... e fazer sentido dentro de sua própria dinâmica.
Os moradores de rua, por exemplo. Ou os esquizofrênicos. Não, o Jorge está redondamente enganado se pensa que um trabalhador, só pq é pobre, está à beira de ser um mendigo. Ser mendigo é ter perdido algo muito anterior ao trabalho e ao dinheiro: muitos deles são pessoas que, por um desgosto na vida, abandonaram posições sociais relativamente altas. Para se chegar à mendicância ou à esquizofrenia passa-se por uma lenta construção - será desconstrução? - da personalidade, das condições emocionais da vida das pessoas.
O mendigo sofre da alma. Suicidou-se socialmente. Ele não tem um problema que possa ser circunscrito ao econômico. E, em muitos casos, ele escolheu esta condição. Exatamente como um suicida faz: pode não fazer sentido para nós, mas faz pra eles. E é esse sentido que importa pra eles.
Então, pra não me alongar, fico com vocês na indignação pela violência, pela barbárie, pela estupidez. E sugiro este atalho: uma visão menos reducionista das pessoas, de todas as diferentes histórias, a quem se convencionou chamar de "moradores de rua" e "mendigos".


Nem todo aquele que pede é pobre...

Um comentário:

Gastón disse...

Certo, entendi. Vou postar um troço sobre teu texto amanhã. Güenta aí.