Fui ao Pantanal e na volta encontro esse delicioso debate sobre sedução, detonado pela música “Por que que eu não pensei nisso antes”, do Itamar Assumpção. Pedro elogia a sedução; Jane desconfia dela; Pati fala do masculino e do feminino.
Pois estava tudo lá, na música que inspirou Pedro ao primeiro post. Como ele ressaltou, sedução é convencer sem brutalidade, usando criatividade e sensualidade. Conquistar o coração do outro:
Pensei em seduzir você, com algo bem provocante
gingando num bambolê, me equilibrando em barbante (...)
bater no peito e dizer, num brado bem retumbante:
“Só penso em você!” – Por que que eu não pensei nisso antes?
Mas tem a sedução da matéria. Tem aquilo que a Jane critica:
Pensei em seduzir você fazendo ar de importante
Te oferecendo um apê, um drink, um refrigerante (...)
dançando numa tevê, coberto por diamantes
num carrão zero – porque que eu não pensei nisso antes...
E, por fim, a coisa do masculino buscando o feminino, da Pati:
Pensei em seduzir você domesticando elefantes
cuidando bem de bebês, doando-me pra transplantes
Além de fazer crochê, pensei dar vôo rasante
ir ao cinema, escrever, reinar neste caos reinante
por cargas d’água, porque que eu não pensei nisso antes?
É por isso que a música é maior. Porque não fraciona, reúne. O desejo de sedução da música mistura tudo, como acontece em nós, nesta bagunça da nossa emoção. Com muito humor, ainda por cima:
Pensei em seduzir você mostrando-me confiante
plantando um pé de ipê, ecólogo ambulante
limpando o rio Tietê, e os outros rios restantes
ser carioca – e baiano! – porque que eu não pensei nisso antes?
Pronto. Um tratado sobre o pior e melhor da sedução. Poético e, ainda por cima, dançável.
(disco “Pretobrás”, de Itamar Assumpção)
30.1.05
25.1.05
Sedução e Consumo
Pedro tem este jeitinho acadêmico de dizer as coisas como se não houvesse uma ideologia por trás. Maneirinha professoral, coisinha que parece estar falando o óbvio.
Mas não me digue que sedução não é diferente de força, pelo menos não hoje. Vejo a criançada seduzida por música estrangeira, vejo adolescentes seduzidos por tênis importados, vejo homens feitos seduzidos por carros reluzentes. Vejo a sedução da mídia, dos políticos que imitam nossos pais, vejo uma pá de mentiras bem arrumadinhas e reluzentes, que de tão bonitas ficam mais apetitosas que a verdade.
É só ligar a TV na Globo e se conclui que sedução é poder, no estilo mais tradicional possível – só que apresentada com um jeito de arte, com música, com psicologia manipulativa. A sedução do corpo perfeito, da mulata rebolante, do luxo.
Afe, eu tô preferindo o porrete que pelo menos é mais claro.
Mas não me digue que sedução não é diferente de força, pelo menos não hoje. Vejo a criançada seduzida por música estrangeira, vejo adolescentes seduzidos por tênis importados, vejo homens feitos seduzidos por carros reluzentes. Vejo a sedução da mídia, dos políticos que imitam nossos pais, vejo uma pá de mentiras bem arrumadinhas e reluzentes, que de tão bonitas ficam mais apetitosas que a verdade.
É só ligar a TV na Globo e se conclui que sedução é poder, no estilo mais tradicional possível – só que apresentada com um jeito de arte, com música, com psicologia manipulativa. A sedução do corpo perfeito, da mulata rebolante, do luxo.
Afe, eu tô preferindo o porrete que pelo menos é mais claro.
15.1.05
Martha e a Realidade Partidária
Martha, minha querida: sou só uma pessoa incrédula com a história que se escreve – ela é sempre a de quem ganhou a guerra.
Hoje lembrando uma de minhas viagens pelo Amazonas, quando cheguei aos países andinos e vi uma profunda aversão a tudo que é espanhol, me perguntava se eles seriam mais felizes se tivessem sido colonizados pelos saxões. Quando vejo um Canadá, Estados Unidos ou Austrália nessa prosperidade que hoje tomamos por modelo, imagino que se os colonizadores latinos tivessem seguido seu método de eliminação total dos aborígenes não teriam se elevado a potências mundiais, usando seus poucos nativos que sobram para o que em sua opinião servem: música, esporte e guerra.
Deve ser bom olhar das janelas de imensos bancos, com orgulho, estas minorias negras e hispânicas hastear a bandeira do colonizador festejando os êxitos militares, esportivos ou musicais que eles colonizadores atribuem a si próprios. Bandeiras de pátrias que se apresentam brancas e de olhos azuis, bandeiras impostas como símbolo destas pátrias.
Lembro-me de Lima, cidade construída séculos antes da chegada do colonizador, com a preocupação de sempre haver sombra em suas ruas para a caminhada. Não há o menor crédito para os que em épocas em que não havia ar condicionado projetaram e construíram esta maravilha, apenas ruas ruinosas e descuidadas.
Digo tudo isso porque a realidade não tem lado escuro nem claro, é uma só, o que não impede cada um de escolher o que quer ver. A beleza nos mantém vivos. Mas eu, por meu lado, quero contar o que vi e senti, quero ouvir outras opiniões – como a sua – e confesso que adoro uma polêmica. Prefiro-a à toda unanimidade burra.
Hoje lembrando uma de minhas viagens pelo Amazonas, quando cheguei aos países andinos e vi uma profunda aversão a tudo que é espanhol, me perguntava se eles seriam mais felizes se tivessem sido colonizados pelos saxões. Quando vejo um Canadá, Estados Unidos ou Austrália nessa prosperidade que hoje tomamos por modelo, imagino que se os colonizadores latinos tivessem seguido seu método de eliminação total dos aborígenes não teriam se elevado a potências mundiais, usando seus poucos nativos que sobram para o que em sua opinião servem: música, esporte e guerra.
Deve ser bom olhar das janelas de imensos bancos, com orgulho, estas minorias negras e hispânicas hastear a bandeira do colonizador festejando os êxitos militares, esportivos ou musicais que eles colonizadores atribuem a si próprios. Bandeiras de pátrias que se apresentam brancas e de olhos azuis, bandeiras impostas como símbolo destas pátrias.
Lembro-me de Lima, cidade construída séculos antes da chegada do colonizador, com a preocupação de sempre haver sombra em suas ruas para a caminhada. Não há o menor crédito para os que em épocas em que não havia ar condicionado projetaram e construíram esta maravilha, apenas ruas ruinosas e descuidadas.
Digo tudo isso porque a realidade não tem lado escuro nem claro, é uma só, o que não impede cada um de escolher o que quer ver. A beleza nos mantém vivos. Mas eu, por meu lado, quero contar o que vi e senti, quero ouvir outras opiniões – como a sua – e confesso que adoro uma polêmica. Prefiro-a à toda unanimidade burra.
Gastón e o Lado Escuro
Estive lendo o post de 2-01-2005 do nosso ilustre senhor químico. Espanholíssimo, revoltado como sempre, querendo distribuir culpa não só pelas mazelas de nossa terra linda mas também por aquelas de alhures. Ah, Gastón, como te complace o lado negro!
Eu, por mim, continuo olhando para o belo: pessoas, textos, natureza. Espero pros nossos leitores e pra você, Gastón, muita beleza neste 2005!
14.1.05
Começando Tudo
Pronto, já é 2005, começou tudo novo. Concordo com o que foi dito pelos amigos no fim do ano: que comece, e que seja novo.
Eu, por mim, neste corpinho que mamãe me deu, estou me sentindo começando. Não é o começo "com gosto de pão fresco" do Drummond. É um começo de parto, mesmo: tenho pedaços de placenta grudados, sinto a dor muscular da luta pra chegar ao zero, meus pulmões ainda ardem do último grito. Sou Zen, mas também sofro.
Depois da ralada, de bater com a cara no muro (ah, o amor...), estou assim, recém-nascido. Não perdi minha história, mas estou com olhos novos. Pronto para engatinhar, andar, tropeçar, cair, andar. E, quando for preciso, nascer de novo.
Eu, por mim, neste corpinho que mamãe me deu, estou me sentindo começando. Não é o começo "com gosto de pão fresco" do Drummond. É um começo de parto, mesmo: tenho pedaços de placenta grudados, sinto a dor muscular da luta pra chegar ao zero, meus pulmões ainda ardem do último grito. Sou Zen, mas também sofro.
Depois da ralada, de bater com a cara no muro (ah, o amor...), estou assim, recém-nascido. Não perdi minha história, mas estou com olhos novos. Pronto para engatinhar, andar, tropeçar, cair, andar. E, quando for preciso, nascer de novo.
2.1.05
Corações e Mentes - Ausentes
Como todos, senti o soco no estômago ao ver as imagens e imaginar as proporções do que aconteceu na Ásia.
Um desastre natural destas proporções deixa a gente cheio de dúvidas. As minhas são sobre nós, os espectadores da catástrofe.
Claro, somos solidários. Quem tem fé reza, quem é da ação doa, na Paulista fizeram um minuto de silêncio. Afinal, foram provavelmente 300 mil mortos, e a situação dos sobreviventes é desesperadora.
Mas em Ruanda foram mais de 800 mil mortos. Assassinados brutalmente, com facões. Estupro, massacre. Porque eu não senti este nó no estômago? Você, que lê estas linhas, consegue comparar o que sentiu então com o que ocorre agora? Fazem apenas 10 anos... Tá, você é novinho e nem sabia ler em 1.994. E Darfur, há apenas alguns meses? Dezenas de milhares de pessoas - crianças, velhos, famílias inteiras - massacrados por sua etnia e religião? E não era a mãe natureza, não , eram homens armados. Era previsivel, durou meses, era evitável.
Minha conclusão é simples: nós sentimos o que vemos. Deixe-me ser mais claro:
nós só sentimos o que vemos. E o que nos é dado ver é selecionado, escolhido a dedo, filtrado. Algum leitor não viu o drama das Torres de N. Y.? E quantos souberam dos genocídios na África?
O ano está começando, e não quero fazer o papel ranzinza de sempre. Não vou ficar aqui reclamando do sistema, do controle do governo e da comunicação de massa. Vou falar para você, que me lê, sobre este 2005 que está começando.
Olhe à sua volta. Bem pertinho, ali na esquina, onde aqueles moleques estão vendendo chicletes, onde o travesti é hostilizado pelos pais de família, onde o maconheiro apanha e é roubado pelo policial truculento. Veja estas pessoas.
Quem sabe, em 2.005, elas passem a existir para mim, para você
e para o mundo.
30.12.04
Por Um Ano Novo de Verdade
Já que o Jorge puxou estes desejos de Ano Novo, mando os meus:
que o ano seja novo de verdade
novos erros
e prazeres
menos tédio e medo
mais coragem e esperança
menos trampo e mais campo
mais coração, mais emoção
(e o suficiente dinheiro na mão)
seja novo de verdade.
Novo. E de verdade.
Feliz 2005 pra todo mundo!
que o ano seja novo de verdade
novos erros
e prazeres
menos tédio e medo
mais coragem e esperança
menos trampo e mais campo
mais coração, mais emoção
(e o suficiente dinheiro na mão)
seja novo de verdade.
Novo. E de verdade.
Feliz 2005 pra todo mundo!
29.12.04
Um Rio Iluminado
Sei que o Rio tem famas, sei que os freqüentadores deste blog - em particular os paulistas - devem ter a imagem de uma cidade violenta e caótica.
E é verdade.
Mas em noites como esta que se aproxima, os cariocas se enchem de ternura pela sua maravilhosa cidade. As luzes sobre o mar e a lagoa, a brisa marítima que diminui o calor sufocante, o congraçamento branco que se produz nas ruas, tudo isto enche nossos olhos e reanima nossos corações.
Somos novamente, por algumas horas, o Rio do Hotel Glória e do Copa, sem deixarmos de ser Plataforma e os baixos. Somos, como no carnaval, uma cidade feliz.
E o Rio mostra, tranqüilo e soberano, todo o seu fascínio.
Neste encontro de montanha e mar, um espetáculo de beleza que vai muito além dos fogos.
Um espetáculo humano de alegria, de esperança, de fé.
Na mais bela moldura do mundo.
E é verdade.
Mas em noites como esta que se aproxima, os cariocas se enchem de ternura pela sua maravilhosa cidade. As luzes sobre o mar e a lagoa, a brisa marítima que diminui o calor sufocante, o congraçamento branco que se produz nas ruas, tudo isto enche nossos olhos e reanima nossos corações.
Somos novamente, por algumas horas, o Rio do Hotel Glória e do Copa, sem deixarmos de ser Plataforma e os baixos. Somos, como no carnaval, uma cidade feliz.
E o Rio mostra, tranqüilo e soberano, todo o seu fascínio.
Neste encontro de montanha e mar, um espetáculo de beleza que vai muito além dos fogos.
Um espetáculo humano de alegria, de esperança, de fé.
Na mais bela moldura do mundo.
19.12.04
Um Natal Pagão e Cheio de Amor
Foi na década de 80. Estávamos intimidados por uma nova lei que ameaçava proibir os beijos públicos, os travestis eram assassinados nas ruas de Sampa, um deputado do PT havia sido preso por estar beijando outro homem dentro de seu carro. Era preciso fazer algo.
Foi a "passeata do pacote sexual" (outro nome para o pacote judiciario que acabava de ser baixado). Estávamos ali os anarquistas, a ala mais progressista do PT, os travestis, os curiosos. Atravessamos o centro até sermos barrados pelas viaturas, que no entanto não nos atacaram. A passeata terminou de forma pacífica, aplaudida pelos populares.
À noite, a festa. No antigo Teatro Mambembe, na r. do paraíso. Um natal pagão, com rock, reggae, salsa... e um beijo do porteiro na entrada. Os convites tinham uns anjinhos com cara de junkie e óculos escuros. Dançamos, cantamos, celebramos.
Naquele momento, aquela tribo de tribos parecia que iria durar para sempre.
Era Natal, era pagão, era cheio de alegria. De sensualidade. De generosidade, de luta.
Foi a "passeata do pacote sexual" (outro nome para o pacote judiciario que acabava de ser baixado). Estávamos ali os anarquistas, a ala mais progressista do PT, os travestis, os curiosos. Atravessamos o centro até sermos barrados pelas viaturas, que no entanto não nos atacaram. A passeata terminou de forma pacífica, aplaudida pelos populares.
À noite, a festa. No antigo Teatro Mambembe, na r. do paraíso. Um natal pagão, com rock, reggae, salsa... e um beijo do porteiro na entrada. Os convites tinham uns anjinhos com cara de junkie e óculos escuros. Dançamos, cantamos, celebramos.
Naquele momento, aquela tribo de tribos parecia que iria durar para sempre.
Era Natal, era pagão, era cheio de alegria. De sensualidade. De generosidade, de luta.
E de amor.
11.12.04
Val na Área
Fomos visitados neste humilde blog pela Valéria Tarelho, que tem 10 poemas publicados no Livro da Tribo deste ano.
Consciencioso de minhas obrigações como faxineiro deste site, e cumprindo a grata função de ilustrá-lo (ou seja, adicionar visual a ele), boto aqui um destes poemas que é música nos ouvidos e tela na mente:
Consciencioso de minhas obrigações como faxineiro deste site, e cumprindo a grata função de ilustrá-lo (ou seja, adicionar visual a ele), boto aqui um destes poemas que é música nos ouvidos e tela na mente:
meu sonho alado
voa alto
desgovernado
quando caio na real
é pena
p r a t o d o l a d o
Valéria Tarelho
24.11.04
72 kgs de Puro Carinho
Querida Martha, queridos Jorge e Pedro: sinto-me muito à vontade pra palpitar neste assunto porque não me incluo entre "os de esquerda" que a Martha acusa de pesados. Não consigo ver na atitude de Martha uma alienação: vejo a multiplicidade de pessoas que somos, e sua riqueza.
Pretendo continuar disponibilizando meus setenta e dois kilos de atenção e carinho por esta roda tão diversa, e continuarei a dar as boas vindas para os que protestam e para os que protestam contra aqueles que protestam.
Pretendo continuar disponibilizando meus setenta e dois kilos de atenção e carinho por esta roda tão diversa, e continuarei a dar as boas vindas para os que protestam e para os que protestam contra aqueles que protestam.
20.11.04
Pesados, vocês, hein??
Então Jane e Gastón, finalmente de acordo. Concordando uma com o outro na reinvindicação, é claro, no protesto.
Eu olho para a minha cidade-luz e penso de onde vem este rancor todo, esta amargura que vocês destilam nos textos. E o amor, a sensualidade, a amizade? E a beleza? Tem que ser o tempo todo assim, reclamando?
Convido meus pares a uma certa leveza. Sei que vão me chamar alienada, vão remoer chavões de esquerda contra mim.
Não tem importância. Eu estou bem. E fico com a beleza.
Eu olho para a minha cidade-luz e penso de onde vem este rancor todo, esta amargura que vocês destilam nos textos. E o amor, a sensualidade, a amizade? E a beleza? Tem que ser o tempo todo assim, reclamando?
Convido meus pares a uma certa leveza. Sei que vão me chamar alienada, vão remoer chavões de esquerda contra mim.
Não tem importância. Eu estou bem. E fico com a beleza.
18.11.04
É Duro Concordar com o Gastón
Deixando a ironia de lado - não consigo ser irônica com estas desgraças - é preciso concordar com o companheiro Gastón. Este aumento de juros é uma porretada.
Como militante do PT, eu me envergonho desta abordagem, desta lógica, deste percurso. Vão dizer que sou radical, sou mesmo, e também sou assalariada. E também tenho amigos desempregados. E também uso o sistema público de saúde.
E sei que a grana que podia ajudar tudo isto tá indo pros juros dos banqueiros.
Todos não estão - definitivamente - bem.
Só alguns.
Como militante do PT, eu me envergonho desta abordagem, desta lógica, deste percurso. Vão dizer que sou radical, sou mesmo, e também sou assalariada. E também tenho amigos desempregados. E também uso o sistema público de saúde.
E sei que a grana que podia ajudar tudo isto tá indo pros juros dos banqueiros.
Todos não estão - definitivamente - bem.
Só alguns.
Nós Não Vamos Pagar Nada
AH, que bacaninha! Aumentaram os juros pra não deixar a inflação sair da meta (deles!!). Quiéquitem se a gente fica na merda mais um ou dois aninhos, certo? Tamos acostumados mesmo...
O engraçado é que eles aumentam os juros da própria dívida do governo. Este aumentinho merreca, de 0,5 %, vai comer 5 bilhões de reais. Certamente mais do que usaram até agora nos seus programas-esmola.
Tem importância não. Como diz o faxineiro, estão todos bem.
O engraçado é que eles aumentam os juros da própria dívida do governo. Este aumentinho merreca, de 0,5 %, vai comer 5 bilhões de reais. Certamente mais do que usaram até agora nos seus programas-esmola.
Tem importância não. Como diz o faxineiro, estão todos bem.
14.11.04
Fomos Ali e Já Voltamos
Não no sentido de “voltamos já, já”, mas no de “já voltamos”, mesmo, estamos aqui. Uma conjunção de fatores – as eleições, o final do período nas universidades, a “safra” da Tribo – nos deixaram fora do ar por umas semanas.
Mas estão todos bem. Em nossos melhos particulares, trocamos o indispensável para continuarmos atentos. Dos últimos posts pra cá, pouco mudou: Arafat morreu, o PT tomou uma coça em Porto e Sampa, Bush foi reeleito. Tem problema não. Estão todos bem.
E voltamos a digitar nossas arrojadas linhas neste espaço. Ainda com algumas falhas, que ninguém ainda se livrou totalmente de seus enroscos. Mas com maior freqüência.
Bem vindo ao Triboblog!
Mas estão todos bem. Em nossos melhos particulares, trocamos o indispensável para continuarmos atentos. Dos últimos posts pra cá, pouco mudou: Arafat morreu, o PT tomou uma coça em Porto e Sampa, Bush foi reeleito. Tem problema não. Estão todos bem.
E voltamos a digitar nossas arrojadas linhas neste espaço. Ainda com algumas falhas, que ninguém ainda se livrou totalmente de seus enroscos. Mas com maior freqüência.
Bem vindo ao Triboblog!
27.9.04
Manhã de Sol
Quando você sai disposto a se surpreender com o simples, com a cara das pessoas. Um passeio matinal, despretensioso, disponível. Que torne possível um olhar fresco sobre as coisas.
Ver como cada rosto foge do feio/bonito e, ainda assim, transborda impressões. A cara inchada e sonolenta das crianças, a expressão paciente do senhor, o ar ocupado e apressado da jovem com o tailleur. O morador de rua, o policial. Os tipos, os subtextos. Nossos medos e afetos frente a eles.
Mas sobretudo a luz da manhã no rosto das pessoas.
Ver como cada rosto foge do feio/bonito e, ainda assim, transborda impressões. A cara inchada e sonolenta das crianças, a expressão paciente do senhor, o ar ocupado e apressado da jovem com o tailleur. O morador de rua, o policial. Os tipos, os subtextos. Nossos medos e afetos frente a eles.
Mas sobretudo a luz da manhã no rosto das pessoas.
11.9.04
Securas
A Capital de todos os paulistas esturricou esta semana.
Somaram-se os dias mais quentes aos mais secos do ano.
Não é só o arenoso do ar que se respira,
não é só o agulhar do sol no olho da gente.
O clima aqui transcendeu o clima.
Estamos no mais desidradatado iraque e entre os inocentes estraçalhados;
nos assombram iguais o terror da guerra dominadora colonial
e aquele dos fanáticos que contabilizam friamente a morte de suas vítimas.
Pessoas são mortas nesta cidade com um golpe único em suas cabeças,
enquanto dormem.
É tudo muito seco.
E bobeou o Bush ainda se reelege.
(não tem importância,
presta atenção,
está cheio de vida à tua volta!)
o oposto de secura é musicalidade.
musical
é úmido.
6.9.04
Sobre a Morte e a Vida
Tive dificuldades de contar para o Arthur, que está com 3 anos e ainda não sabia nada sobre a morte, que o seu avôzinho tinha ido. No dia em que recebi a notícia, não contei porque viajaria no dia seguinte para o funeral e só retornaria uns 15 dias depois. Fiquei com receio, não sabia qual seria a reação dele. Depois, na volta, estando muito mexido, não tive coragem. A viagem havia incluído compromissos de trabalho e eu só queria estar em casa, onde pudesse chorar em paz. Tive medo de desabar, ao abordar o assunto com ele.
Quase um mês depois, minha companheira e um amigo muito querido me deram ânimo e argumentos irrefutáveis para contar: a criança, não importa qual seja a idade, vai justamente começar elaborar seus conceitos sobre a morte, nessas circunstâncias. A relação do Arthur com meu pai foi muito especial, embora curta. Não contar seria protegê-lo do inevitável, de algo normal.
Naquela mesma noite tive um sonho com o meu pai. Ele abria a porta do quarto onde eu estava e me olhava. Mas os seus olhos lembravam o olhar da minha avó, a mãe do meu pai. Ela tinha sempre um olhar que enganchava as pessoas pela culpa.
É impressionante como na morte de alguém que amamos, algumas culpas aparecem: não ter feito tudo o que gostaríamos com aquela pessoa, conflitos, palavras duras. No meu caso, também, por não ter levado a sério aquela intuição que já vinha martelando. É como se a gente cobrasse uma infalibilidade impossível, nessas horas.
No sonho, eu me levantei e perguntei ao meu pai: - Mas pai, você não morreu? E ele deu um sorriso, apenas. Aquele sorriso bonito que era bem dele. Eu me arrepiei todo (e me arrepio ao escrever). Fui acordado pela minha companheira, por conta do ruído típico de quem está tendo um pesadelo. Fiquei acordado um tempo e o arrepio não passou de imediato...
Me caiu a ficha de que era como se meu pai estivesse dizendo: - Sim, eu morri, conta pro Arthur. Como se ele estivesse pedindo que eu desse um fechamento. Não contar, além de ser uma proteção desnecessária, era também a maneira de não admitir que, realmente, ele tinha ido. De manhã, quando desci para tomar sol com o Arthur, contei-lhe. Disse que o Bogô (Vô Gordo, na sua língua) tinha ficado muito doente e estando bem velhinho, havia morrido. Ele franziu a testa, abaixou a cabecinha e seguiu me ouvindo. De repente, me interrompeu e disse: - Eu não estou mais dodói, não é mesmo?
Disse-lhe que não, que já estava bom (ele teve febre muito alta, na mesma noite em recebi a notícia de que meu pai estava passando mal, mas que parecia não ser muito grave). Depois o Arthur perguntou: - Você está dodói? Eu respondi que não, e que também não estou velhinho.
- A mamãe também não está dodói, afirmou, dando a volta por cima...
Me lembrei da Pri, minha filha, hoje com 20 anos. Quando tinha cerca de 4 anos, um dia me colocou contra a parede: - Pai, é verdade que todo mundo morre um dia? Ao responder que sim, ela foi ficando preocupada e perguntou se um dia iria morrer, também. Confirmei, mas expliquei que normalmente as pessoas morrem quando ficam bem velhinhas. E ela retomou: - você e minha mãe também vão morrer? De novo disse que sim, mas que a gente ainda tinha muito tempo pela frente. Ela então chorou...
Senti que a conversa com o Arthur, repetiu as mesmas dúvidas da Pri. Primeiro o medo da própria morte, depois o medo da morte dos pais. Lembrei-me de que naquela hora, com a Pri, havia em sua dor um pedido para que eu não morresse jovem. Que eu não partisse antes de que ela fosse capaz de ir pro mundo, quando fosse mais suportável encarar a minha morte. E foi também o que senti, com as perguntas do Arthur. Entendi que quando a gente é pequeno - foi assim comigo também - uma das coisas que mais tememos é que nossos pais morram.
Então prometi, há uns 17 anos atrás, que vou me cuidar para não ir antes da velhice. Sei que a gente não tem controle sobre isso, mas é possível se cuidar, amar a vida. Não só pelo filhos, claro, mas também por nós mesmos.
Liguei pra Pri, depois do diálogo com o Arthur, e contei que eu havia renovado, através das perguntas que ele me fez, o meu compromisso em não deixar de gostar de viver. O mesmo compromisso que havia feito movido pelas perguntas dela. Quando desliguei o telefone, consegui terminar de chorar, um choro que não havia saído inteiro, quando fui ver o meu pai pela última vez.
Para o Arthur, disse ainda que, agora, a gente só vai poder lembrar do Bogô. Quando tivermos saudades veremos as suas fotos e o lembraremos com amor...
Ilou
4.9.04
No Such Thing as a Winnable War
Estivemos falando (Gastón e Jorge estiveram) sobre barbárie, estupidez, violência. Chechenos e russos estrapolam, com 350 mortos, a maior parte crianças.
In Europe and America, there's a growing feeling of hysteria.Conditioned to respond to all the threats
Para nós, que somos pais, a brutalidade é impensável. Atirar em crianças, quem conseguiria? E porquê? Clovis Rossi, da Folha, lembra Ernesto Sábato: os adultos são sempre culpados de alguma coisa, mas as crianças, que culpa podem ter as crianças?
Mr. Krushchev said "we will bury you".
I don't subscribe to this point of view.
It would be such an ignorant thing to do,
If the Russian love their children too
Mas isso é para nós, que somos pais. Para os amantes, a brutalidade é a morte do amado. O nome do comando que executou a ação na Rússia era Viúvas Negras: era composto por mulheres que perderam seus companheiros para a repressão russa.
We share the same biology.
Regardless of ideology.
E, assim, a replicação da dor se faz. As viúvas matam os filhos dos responsáveis. As crianças, desde sempre, aliás, passam a ter parte na culpa.
There's no such thing as a winnable war.
It's a lie we don't believe anymore.
Mr. Reagan says "we will protect you"
I don't subscribe to this point of view.
São alvejadas no Iraque, na Palestina, em Israel, no Afeganistão, em Oklahoma City. Servem para os adultos demonstrarem que estão dispostos a tudo. Reunem-se os antigos inimigos - China, EUA, Rússia - para nivelarem-se na equânime disposição de massacrar preventivamente. Como se o terror não tivesse raiz na dor.
We share the same biology,
Regardless of ideology.
What might save us me and you,
Is that the Russians love their children too.
E, no final, Sting tinha razão: o que pode nos salvar a todos é que, no meio disso tudo,
os russos
os chechenos
amam suas crianças
e seus companheiros
também
In Europe and America, there's a growing feeling of hysteria.Conditioned to respond to all the threats
Para nós, que somos pais, a brutalidade é impensável. Atirar em crianças, quem conseguiria? E porquê? Clovis Rossi, da Folha, lembra Ernesto Sábato: os adultos são sempre culpados de alguma coisa, mas as crianças, que culpa podem ter as crianças?
Mr. Krushchev said "we will bury you".
I don't subscribe to this point of view.
It would be such an ignorant thing to do,
If the Russian love their children too
Mas isso é para nós, que somos pais. Para os amantes, a brutalidade é a morte do amado. O nome do comando que executou a ação na Rússia era Viúvas Negras: era composto por mulheres que perderam seus companheiros para a repressão russa.
We share the same biology.
Regardless of ideology.
E, assim, a replicação da dor se faz. As viúvas matam os filhos dos responsáveis. As crianças, desde sempre, aliás, passam a ter parte na culpa.
There's no such thing as a winnable war.
It's a lie we don't believe anymore.
Mr. Reagan says "we will protect you"
I don't subscribe to this point of view.
São alvejadas no Iraque, na Palestina, em Israel, no Afeganistão, em Oklahoma City. Servem para os adultos demonstrarem que estão dispostos a tudo. Reunem-se os antigos inimigos - China, EUA, Rússia - para nivelarem-se na equânime disposição de massacrar preventivamente. Como se o terror não tivesse raiz na dor.
We share the same biology,
Regardless of ideology.
What might save us me and you,
Is that the Russians love their children too.
E, no final, Sting tinha razão: o que pode nos salvar a todos é que, no meio disso tudo,
os russos
os chechenos
amam suas crianças
e seus companheiros
também
Assinar:
Postagens (Atom)





